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Homenagem ao professor Constantino Vital Sopa Soares

Homenagem ao professor Constantino Vital Sopa Soares

Notícia escrita em 17/11/2019

 

Por ocasião da aposentação do professor Constantino Vital Sopa Soares, o Instituto Superior de Engenharia de Lisboa organizou uma sessão de homenagem no passado dia 7 de novembro, no auditório principal, na qual o homenageado proferiu uma lição subordinada ao tema "Descargas atmosféricas (raios): da tentativa de armazenamento à proteção contra os seus efeitos”. 

Com a plateia lotada, a apresentação ficou a cabo do professor Fernando Nunes, presidente da área departamental do professor Constantino Vital Sopa Soares (Área Departamental de Engenharia Eletrotécnica de Energia e Automação). Emocionado, o professor Fernando Nunes discorreu sobre o seu amigo de longa data. 

No final da sessão, o professor Constantino Vital Sopa Soares foi agraciado com a Medalha de Mérito da Ordem dos Engenheiros Técnicos, como reconhecimento pelo contributo relevante, a sua ação e mérito pessoal para o progresso da Engenharia e para o bem comum. Seguiu-se-lhe a entrega de uma lembrança por parte do Politécnico de Lisboa, pelas mãos do seu amigo de longa data Elmano Margato. 

O professor Constantino Vital Sopa Soares entregou ainda dois exemplares do seu livro aos seus dois melhores alunos, Mafalda Barros e Bruno Pedro, do ano letivo anterior, em Concepção de Instalações Elétricas do Mestrado en Engenharia Electrotécnica.

A noite terminaria com um jantar de confraternização no restaurante do ICA, no Edifício A do ISEL.

Entrevista ao Professor Constantino Vital Sopa Soares...

No mês em que se aposentou e lecionou a sua “última aula”, na qual por todos foi homenageado, de alunos, docentes e amigos à Ordem dos Engenheiros Técnicos, o professor Constantino Vital Sopa Soares explica-nos as várias etapas da sua ímpar carreira na Engenharia Eletrotécnica, onde se destaca uma ligação de quase meio século ao ISEL enquanto aluno, monitor e docente. Um manual de sabedoria e generosidade para as gerações mais jovens. 

PERGUNTA: Quando veio para o ISEL, ainda se chamava IIL (Instituto Industrial de Lisboa), foi aluno e depois monitor e docente, podia contar-nos um pouco melhor essa sua história?RESPOSTA: Tudo começou quando, em criança, tive o sonho, que ainda alimento, de “Estudar Eletricidade” e, dessa forma, contribuir para acabar com a segregação regional entre os cidadãos de um mesmo país “à beira mar plantado”.

Com efeito, na década de 1950/60, em termos de conforto garantido pelo acesso à energia elétrica, verificava-se uma grande assimetria entre os portugueses residentes nas cidades e os restantes, independentemente da posição profissional ou pessoal. A designada “Eletrificação rural” ainda era uma miragem para muitas populações do país mais profundo (e abandonado).

Apesar de viver num concelho fortemente industrial, à época, a apenas 25 km da capital deste Portugal (de tão reduzidas dimensões), quem quisesse estudar, a única hipótese passava por ingressar na Escola Técnica (não havia Liceu no meu concelho), o que teve como consequência “passar” mais anos nos bancos da escola para atingir o objetivo de ser Engenheiro Eletrotécnico.

Em 1969 concluí o Curso de Montador Eletricista da EIC de Vila Franca de Xira. Continuei os estudos na, infelizmente abandonada, Escola Afonso Domingues, onde concluí a Secção Preparatória aos Institutos Industriais.

Em 1971 ingresso no Instituto Industrial de Lisboa (IIL), onde obtenho uma bolsa de mérito da Gulbenkian, pela classificação obtida nas provas de ingresso (exame).

Dois anos mais tarde concluo o 2.º ano do Curso de Eletrotecnia e Máquinas do IIL, incluindo o aproveitamento em mais duas unidades curriculares bianuais (Mineralogia e Filosofia), imprescindível para quem tivesse por horizonte ingressar no Instituto Superior Técnico (IST).

Em 1973, ingresso no Curso de Engenharia Eletrotécnica - Energia e Sistemas de Potência do IST.

Entre 1974 e 1975 os estudos são interrompidos para cumprimento do serviço militar obrigatório.

Entretanto o IIL, por força de aplicação do Dec. Lei n.º 830/74, “passa” a ISEL, sendo integrado no ensino superior universitário, podendo, nos termos daquele diploma legal (art.º 2º/n.º2), atribuir os graus de bacharelato, licenciatura e doutoramento.

Em 1975/76, por um processo de equivalências e dado não existirem potenciais colegas com as mesmas formações anteriores que permitisse a criação de uma nova turma, procuro ex-alunos do IIL com a mesma motivação para cursarem no ISEL (já ensino universitário).

Passo a integrar a comissão científico/pedagógica do Curso de Energia e Sistemas de Potência, onde desenvolvo diligências para contratação de novos docentes de forma a ser criada uma nova turma. O processo não foi fácil, mas com a ajuda de outros colegas conseguiram-se os objetivos.

Em 1977 concluo o Bacharelato do ISEL em Engenharia de Energia e Sistemas de Potência e solicito o reingresso no IST, vindo a concluir o Curso de Engenharia Eletrotécnica de Energia e Sistemas de Potência em 1979.

Simultaneamente com a frequência do IST, sou monitor na área de Máquinas Elétricas no ISEL.

Após a conclusão do Curso do IST, e apesar de ter sido convidado pelos responsáveis das secções de Medidas Elétricas e de Energia para assistente daquela escola, prescindo daqueles honrosos convites para iniciar a carreira docente no ISEL. Note-se que, nessa época, ambas as escolas eram de ensino universitário e poderiam atribuir os mesmos graus académicos.

O ISEL, sendo a primeira escola onde iniciei os meus estudos superiores, e atendendo aos novos estatutos, era extremamente apetecível não apenas para quem tinha sido aluno, como também para professores de referência internacional que haviam iniciado as suas carreiras no estrangeiro e estavam interessados em fazer uma escola nova e de referência no ensino da Engenharia.

Depois de ter decorrido o período de assistente eventual, e de ter passado à situação de assistente do ensino universitário, solicito autorização ao Conselho Científico/Pedagógico do ISEL para fazer pós-graduação na Faculdade de Engenharia da Universidade de Coimbra, na área científica em que lecionava, mas não obtenho parecer favorável.

Apesar de a “agulha” se ter desviado do rumo que tinha traçado inicialmente, não desisto de aprofundar os conhecimentos na Engenharia Eletrotécnica, pois entendo que a melhor forma de o fazer é tentar encontrar soluções para questões que a sociedade nos coloca. Afinal, essa é uma das funções (principais) das “universidades”.

Como sempre gostei de estudar, frequento mais de quatro dezenas de cursos, de índole fundamentalmente prática, na área, então emergente, da automação industrial (elétrica, pneumática e hidráulica), ensinamentos que originaram a criação de duas novas unidades curriculares nos cursos de Engenharia Eletrotécnica do ISEL.

Paralelamente, e porque para lecionar na área das Instalações Elétricas é necessária experiência profissional, faço projetos de instalações de todos os tipos (desde as simples moradias até à proteção contra descargas atmosféricas de grandes parques de combustíveis, passando por hospitais, universidades, prisões, praças de toiros, estádios de futebol, urbanizações, estabelecimentos comerciais e industriais, redes de distribuição de energia, etc.).

Mas, ao fim de mais de uma década de atividade intensa como projetista, já não surgem projetos significativamente diferentes e a motivação para continuar esta atividade deixa de existir.

Decido então aprofundar os porquês da “normalização” (nacional e internacional), nas áreas em que vinha desenvolvendo atividade (instalações elétricas, proteção contra choques elétricos, proteção contra descargas atmosféricas, terras, etc., incluindo uma forte aprendizagem em terminologia da eletricidade), imprescindível para quem tem a responsabilidade de ministrar conhecimentos nesta área a futuros engenheiros eletrotécnicos.

Entretanto, no ISEL, assiste-se a um período algo perturbado em termos de acreditação das (novas) licenciaturas (de cinco anos), de contratação de docentes, etc., e a solução “imposta” pelos governantes, em 1988, para resolução das situações pendentes foi de “empurrar” o ISEL para o Ensino Superior Politécnico, integrando-o no Instituto Politécnico de Lisboa (IPL).

Já como docente do IPL, realizo provas públicas, quer para professor adjunto, quer para professor coordenador, categoria profissional com que passei à aposentação em 2019.

Para além da atividade docente, com lecionação e responsabilidades em mais de uma dezena de unidades curriculares, distribuídas por vários grupos disciplinares, e de autoria de várias publicações, desempenhei, entre outros, funções em órgãos de gestão, destacando os seguintes:

- Presidente do CIC (Centro de Instrumentação e Controlo - primeiro centro de estudos do ISEL com estatutos oficialmente aprovados);

- Presidente do Conselho Pedagógico do ISEL (realização das “primeiras Jornadas Pedagógicas do ISEL e do primeiro Guia do aluno);

- Presidente do Departamento de Engenharia Eletrotécnica do ISEL (realização das “primeiras Jornadas de Engenharia Eletrotécnica do ISEL);

- Assessor do Conselho Diretivo do ISEL (área da Eletricidade).

E, ao fim de tantos anos de dedicação ao ISEL, interrogo-me se valeu a pena “ter passado o que passei e ter vivido o que vivi”?

Será que a não autorização do ISEL para eu fazer formação pós-graduada foi má para a escola e particularmente para os alunos? Deixo à comunidade eletrotécnica a resposta.

 - Na academia (e nos moldes actuais de avaliação do desempenho dos docentes), tenho a convicção que, no geral, eu seria BEM mais reconhecido pelos meus pares.

 - Na Engenharia Eletrotécnica, incluindo a própria formação superior na área das instalações elétricas em Portugal, pelos testemunhos que tenho recebido dos profissionais do sector, estou convicto que tomei a opção certa.

E agora? “Quero continuar a ser feliz e a ter uma família unida.”

 

PERGUNTA: A Revolução dos Cravos teve um grande impacto no IIL, existiram Reuniões Gerais de Alunos (RGA’s) muito emotivas… Participou nas mesmas?

RESPOSTA: A Revolução dos Cravos “passei-a” como militar (no seio de todas as emoções), uma vez que no período de 1974 a 1975 estive a cumprir o serviço militar obrigatório.
Porém, aquando do meu regresso ao ISEL após a “tropa”, ainda senti os efeitos do designado “período revolucionário em curso”, pouco compatível com a qualidade e a exigência da formação de referência no ensino superior da Engenharia.

Ainda travei algumas “lutas” com as “forças vivas” da escola no sentido do regresso à normalidade e à responsabilidade de todos os intervenientes no processo educativo (alunos, docentes e funcionários não docentes).

Naturalmente ninguém faz nada sozinho e tive sempre o apoio daqueles que, como eu, não se reviam nalguma “ocupação” de espaços da escola, necessários às atividades letivas, por forças políticas mais ativas naquele período da Revolução dos Cravos.

Neste sentido, gostaria de partilhar, fundamentalmente com os mais novos, o lema que sempre pratiquei ao longo da minha vida em comunidade: “Se queres que algo se realize, não esperes que os outros o façam por ti. Dá o primeiro passo e, por vergonha ou por simpatia, terás ajuda dos teus pares.”

 

PERGUNTA: Quando houve uma alteração no ensino, com o aparecimento dos Institutos Superiores de Engenharia, por via do Decreto-Lei n.º 830/74, o ISEL viu o seu nome projetado na sociedade com alunos muito bem preparados e com grande aceitação na indústria nacional. Como foi vivido esse período de apogeu e reconhecimento? 

RESPOSTA: Tal como referi no início desta entrevista, com a publicação do Decreto-Lei n.º 830/74, abre-se uma nova esperança na escola e surge a oportunidade de alterar significativamente a composição do corpo docente.

Sentia-se a necessidade de criação de uma carreira docente mais “profissional”, onde existissem maioritariamente os “docentes de carreira”, em exclusividade de funções e que garantissem o funcionamento da escola, complementada com “docentes convidados”.

Desta simbiose entre os “docentes de carreira” e os “docentes convidados” era possível formar diplomados em Engenharia perfeitamente adaptados ao exercício da atividade.

Em meu entendimento, a escola não deve garantir apenas o “saber/saber”, primeira valência em qualquer ensino superior, como também o “saber/fazer”, para uma boa adaptação dos formandos ao “mercado de trabalho”, sem descorar o “saber/estar”, garantidos pela vivência aberta que sempre caracterizou o relacionamento “professor/aluno” no ISEL.

A motivação para ser docente do ISEL não podia ter sido maior até porque, na área da Engenharia Eletrotécnica (onde sempre lecionei até à aposentação), tinham também chegado ao ISEL um conjunto de colegas com percurso idêntico ao meu.

Se pensarmos que também tinham decidido exercer funções nesta escola alguns docentes regressados aos país após a Revolução dos Cravos e outros que tinham ficado com igual vontade de inovar e de sentir a escola como a “sua casa”, era, de facto, uma grande oportunidade para formarmos alunos com sólida formação em Engenharia.

A comprovar o resultado da dedicação e empenho de todos quanto laboram no ISEL, estão os nossos alunos, e particularmente os diplomados em Engenharia Eletrotécnica, pelo reconhecimento da sociedade civil nos actos de engenharia por que respondem, tanto em Portugal como no estrangeiro.

Aos meus alunos estou-lhes extremamente grato pelas questões e dúvidas que frequentemente me colocavam, pois como dizia o Séneca: “As pessoas aprendem quando ensinam.”

 

PERGUNTA: Publicou o livro "Instalações Elétricas de Baixa Tensão-Projecto, Execução e Exploração” no âmbito da sua colaboração com a Direção-Geral de Energia. Sendo um reconhecido especialista nesta área, qual o seu contributo para a evolução desta especialidade da engenharia em Portugal? 

RESPOSTA: O livro mencionado, publicado em 2009 (embora o ISBN seja de 2006), e que foi apresentado publicamente no ISEL, é, frequentemente considerado pelos profissionais do sector uma obra de referência nas instalações elétricas.

É o resultado de várias décadas dedicadas à Engenharia Eletrotécnica, e particularmente às instalações Elétricas, tanto a nível do ensino superior, como da experiência adquirida na área da normalização e regulamentação ou da atividade de projetista de instalações elétricas.

Aliás, quando me foi solicitado pela Direção-Geral de Energia (DGE) a concepção desta obra (que levou cerca de dez anos a ser concluída), o objetivo era o de esclarecer os profissionais e os estudantes de Engenharia Eletrotécnica para as principais alterações que a publicação das RTIEBT:2006 veio introduzir na “prática” das Instalações Elétricas.

A solicitação para a escrita daquele livro (co-edição da DGEG e da CERTIEL) teve a sua génese no facto de eu ter sido um dos autores e responsável de todos os estudos que o ISEL/CIC apresentou à DGE e que tiveram como epílogo a publicação do diploma legal que alterou o “DL 740/74”.

O ser considerado especialista (perito) deve-se ao facto de ter iniciado a minha atividade nesta área em 1983 (por convite do saudoso Inspetor Superior da Direção-Geral dos Serviços Elétricos, engenheiro Guilherme Martins) e de a ter mantido até hoje; e, continuo, enquanto membro dos comités nacionais da IEC (Comissão Eletrotécnica Internacional) e do CENELEC (Comité Europeu de Normalização Eletrotécnica).

Durante este período, participei ativamente em mais de uma dezena de documentos técnicos (guias técnicos, regulamentos, normas, pareceres, etc.) na área das instalações elétricas, da proteção contra os choques elétricos e da proteção contra as descargas atmosféricas, publicados pela DGE e que ainda constituem referências para os profissionais do sector.

Esta actividade de transmissão do conhecimento iniciou-se com o Guia Técnico de pára-raios (1.ª edição publicada em 1988) e ainda se mantém, pois está em curso a elaboração de mais um documento de apoio à Engenharia Eletrotécnica – “Guia Técnico das Instalações fotovoltaicas”; é uma atividade em que coloco todo o meu empenho e sabedoria pois, como deixei registado nas “folhas” que fornecia aos meus alunos para apoio às aulas,“Em meu entendimento, a Engenharia Eletrotécnica só será sustentável se conseguirmos transmitir às novas gerações o que sabemos e se os “mestres” conseguirem fornecer aos “aprendizes” as ferramentas que lhes possibilitem alcançar outros horizontes e, desejavelmente, que venham a ultrapassá-los, com ética e deontologia profissional, no conhecimento.”

 

PERGUNTA: Além da engenharia, também tem paixão pela pesca. A mente de engenheiro precisa sempre de um complemento? 

RESPOSTA: É verdade. Tal como eu transmiti nas minhas “palavras” por ocasião da homenagem que o ISEL me prestou no passado dia 7 de novembro, em que lecionei a minha “última aula”, e que muito me sensibilizou e honrou, há três pilares fundamentais para o engenheiro eletrotécnico manter uma vida equilibrada (e penso poder aplicar-se a todas as atividades que exijam igualmente responsabilidade). Esses pilares são:

- O trabalho – com o imprescindível sustento;

- A diversão –  com o fundamental “carregar das pilhas”;

- A família – com o insubstituível apoio.

Onde, como num sistema físico com três pilares de sustentabilidade, a falha de qualquer um provoca o seu desequilíbrio e engenheiros com mentes desequilibradas não poderão exercer qualquer actividade responsável.

Naturalmente, eu, como qualquer profissional responsável, para manter a mente sã, necessito de momentos de diversão, de rumo diametralmente oposto ao da atividade principal; a pesca e, de um modo geral, os desportos náuticos, pelo contacto com a natureza e, particularmente pelo tranquilizador “mar”, funciona como o eletrólito necessário ao “carregar das pilhas”, indispensável para manter uma vida equilibrada e sustentável, num ambiente familiar saudável.

Permitam-me que termine com um conselho, fundamentalmente dirigido aos mais novos. É necessário saber dosear o tempo e não colocar o “complemento” (diversão) à frente do “dever” (profissional e familiar) pois, como nos transmitiu o grande (“eletrotécnico”) inventor da lâmpada elétrica, Thomas Edison:“Time is really the only capital that any human being has and the only thing he can’t afford to lose.”