PT‑AQUASEIS é o mais recente projeto de investigação científica do ISEL, liderado pela Professora Graça Silveira (DF/ISEL). A iniciativa pretende introduzir, pela primeira vez em Portugal, o uso da interferometria de ruído sísmico ambiente (RSA) como ferramenta de monitorização contínua dos aquíferos do sul do país.
O projeto recorre a uma rede de mais de 30 estações sísmicas, combinando estações permanentes e temporárias, para quantificar variações nas propriedades físicas da subsuperfície induzidas pelas flutuações na carga e descarga dos aquíferos. A validação dos resultados será realizada no Aquífero Querença‑Silves, no Algarve — um dos mais bem caracterizados do território português — através da análise conjunta de dados sísmicos, piezométricos, InSAR, GPS e geoelétricos.
O PT-AQUASEIS é financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia e desenvolvido por uma equipa multidisciplinar, de âmbito nacional e internacional, com competências nas áreas da Física, Sismologia, Hidrogeologia, Geofísica e Geodesia. A equipa do polo IDL@ISEL integra Graça Silveira (investigadora principal), Alexandra Afilhado, David Schlaphorst, Joana Ribeiro e Nuno Dias, estando o projeto associado à UID Instituto Dom Luiz.
São entidades parceiras do projeto a Universidade do Algarve e a Associação para a Investigação e Desenvolvimento de Ciências (FCiências.ID).

Responder aos desafios da escassez de água
Portugal enfrenta um cenário de escassez hídrica crescente, particularmente na região sul. Os métodos tradicionais de monitorização de aquíferos, apesar de precisos, envolvem custos elevados e apresentam limitações na sua resolução temporal e espacial.
O RSA surge, assim, como um método económico, contínuo e de alta resolução temporal, permitindo estudar a dinâmica dos aquíferos à escala regional com detalhe. Esta abordagem inovadora abre portas a uma gestão mais sustentável dos recursos hídricos e a uma resposta mais eficaz aos desafios climáticos.
Como funciona a interferometria de ruído sísmico?
Tal como as ondas sísmicas geradas por sismos, as ondas produzidas por fontes de ruído propagam‑se através da subsuperfície com velocidades que dependem diretamente das características físicas das rochas — incluindo densidade, elasticidade e porosidade, e do seu preenchimento por fluidos.
Assim, flutuações significativas na quantidade de água subterrânea armazenada provocam perturbações no estado de tensão e no preenchimento dos poros dos materiais geológicos que constituem os aquíferos, o que se reflete em variações na velocidade de propagação das ondas sísmicas na subsuperfície. Assim, as variações relativas na velocidade de propagação podem ser usadas como proxy para avaliar alterações na quantidade de água disponível nos aquíferos.
Este método torna possível avaliar os processos transientes como recarga, depleção ou instabilidade associadas a exploração excessiva do aquífero, flutuações sazonais ou eventos extremos.

Impacto e disseminação
Os resultados do projeto serão divulgados em revistas científicas internacionais, conferências e workshops. O trabalho desenvolvido contará, também, com o envolvimento de estudantes e jovens investigadores, ampliando o impacto académico.
Para além da comunidade científica, os resultados serão partilhados com entidades governamentais e regionais, incluindo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e autoridades municipais, assegurando que o conhecimento gerado contribui diretamente para a gestão sustentável dos recursos hídricos.
O PT‑AQUASEIS inclui, ainda, atividades de divulgação junto da sociedade, nomeadamente, através da iniciativa Seismology‑at‑Schools, aproximando os mais jovens da ciência e da monitorização ambiental.